1. Enquanto os pagadores de promessas, elas e eles, avançam aos milhares penosamente pelas estradas de Portugal, em direcção a Fátima, o reitor do respectivo
santuário convocou os jornalistas para, através deles, mostrar ao país e ao mundo o seu mais recente investimento religioso-financeiro, com o qual tenciona
vir a obter ainda maiores receitas anuais do que aquelas que já obtém cada ano na velha basílica de trazer por casa que até agora lá tem funcionado, juntamente
com a chamada capelinha das aparições.
O empreendimento foi baptizado com um nome pomposo. Na impossibilidade de se chamar Banco Espírito Santo (já há no país um empreendimento de fazer dinheiro
com esse nome!), o reitor-banqueiro designou-o de Igreja da SS.ª Trindade, sem dúvida, um verdadeiro achado em matéria de nomes, porque assim não ficou
só com o Espírito Santo, mas também com o Pai e o Filho, portanto, com todos os três entes divinos que constituem o verdadeiro deus de Fátima, o deus Dinheiro.
Mais e maior perspicácia empresarial e financeira era impossível!!!
O edifício apresenta-se com nove mil lugares sentados. E, apesar de custar oficialmente 60 milhões de euros (o mais provável, no entanto, é que os custos
finais se aproximem dos 90 milhões de euros) será todo pago a pronto, dois meses após a apresentação da factura por parte da empresa construtora que não
deixará de esfregar as mãos de satisfação por, desta vez, ao contrário da regra geral, lhe ter caído em sorte semelhante cliente tão pronto pagador!
O reitor Luciano Guerra, que o é desde há uns 30 anos (desde que tomou posse nunca mais foi substituído, como de resto convém nestas coisas de altos negócios
onde há meandros e segredos e redes e compadrios e cumplicidades que levam anos a construir, como acontece no interior de qualquer outra máfia que se preze)
revelou estes e outros importantes dados com um santo orgulho e uma santa arrogância estampados no rosto, o que não deixou de chocar os próprios profissionais
da comunicação social que, na sua ingenuidade, ainda tomam a nuvem por Juno, isto é, ainda pensam que por se falar de Fátima e de senhora de Fátima, de
Igreja e de SS.ª Trindade, se está a falar de Fé cristã jesuânica e de espiritualidade. Ainda não caíram na conta de que tudo isso são rótulos para esconder
os chorudos negócios que estão em jogo, totalmente isentos de impostos por parte do Estado.
O reitor quis, com esta operação mediática, deixar bem claro que o dinheiro nunca foi problema em Fátima, a não ser pelo excesso, de tal modo que, muitas
vezes, nem ele, nem os demais compinchas desta máfia eclesiástica sabem o que hão-de fazer com ele. O país pode estar a afundar-se e ser hoje, como já
é, o mais atrasado da União Europeia, certamente por burrice e incompetência dos sucessivos ministros das finanças e dos sucessivos governos e muitos outros
compadres mais. Mas o mesmo não se pode dizer do reitor e do seu santuário de Fátima levantado no centro de Portugal. Ali sabem muito bem como fazer dinheiro,
como fazer fortuna, como conseguir lucros anuais de fazer inveja ao mais pintado. Podem o reitor e os seus acólitos ser nabos em teologia cristã jesuânica
e em prática quotidiana do Evangelho de Jesus (nem uma nem outra dão dinheiro a ganhar e por isso não são essenciais no santuário de Fátima), mas no resto,
que é afinal o essencial em Fátima – fazer dinheiro sem ter sequer que pagar impostos e apresentar contas sem qualquer contraditório – é que eles não são.
Aliás, é para isso que existem os santuários, as religiões, os templos, as igrejas: para produzir dinheiro e privilégios sem conta, a coberto do santo nome
de Deus, de um mítico Cristo e de nossas senhoras quantas mais melhor. Quando assim é – e Fátima é isso e só isso que é – o respectivo reitor pode muito
bem dar-se ao luxo de meter mãos a um empreendimento religioso-financeiro desta envergadura, apesar de sermos um país de pobreza e de milhões de pobres.
Os seus superiores hierárquicos não só não o censuram publicamente, como ainda por cima lhe dão cobertura, ao garantir que a inauguração, já no próximo
mês de Outubro, contará senão com a presença do chefe máximo da Igreja de Roma, o papa Bento XVI, pelo menos com um cardeal enviado pessoalmente por ele
em sua representação
Os custos faraónicos do empreendimento nunca foram nem serão problema na Igreja católica da Cristandade Ocidental. Pelo contrário, são um elemento constitutivo
e essencial. Porque diz aos potenciais utilizadores e clientes deste empreendimento e de outros congéneres que podem continuar a investir, a fazer as suas
promessas, a correr para os locais onde eles estão abertos ao público, e a confiar neles tanto ou mais do que no próprio Deus! É tão grande o seu poder
financeiro e a sua influência, que nada poderá abalá-los jamais. A não ser um verdadeiro tsunami na consciência dos povos do mundo, coisa muito difícil
de conseguir e sistematicamente contrariada por todos os poderosos e senhores do Dinheiro, mas a única coisa de que, no caso de Fátima, o seu reitor e
demais lacaios mais temem e por isso perseguem sem descanso e tentam desacreditar qualquer tentativa, por pequena que seja (o Jornal Fraternizar, por exemplo)
que vise atingir fecundamente as consciências das pessoas e dos povos, iluminá-las e transformá-las de raiz.
Os peregrinos que todos os anos, entre os meses de Maio e Outubro rumam a Fátima, a pé ou de carro, são os financiadores de tudo (pode haver outras fontes
de receita menos óbvias, que só alguns conhecerão, mas dessas só uma investigação policial ousada e consequente poderá confirmá-lo. Não me compete a mim
fazê-lo).
Vejam então quanto não valem as promessas dos devotos de Fátima. Para cúmulo, tudo isento de impostos. Nem eu sei como é que o actual ministro das finanças
e o actual primeiro-ministro que já foi engenheiro e agora já não é ainda se não lembraram de passar a cobrar impostos ao dinheiro das promessas e das
“ofertas” ao santuário de Fátima. Nem seria difícil de conseguir. Bastaria nomear alguns funcionários das finanças, de preferência católicos, e colocá-los
no santuário de Fátima S.A., dia e noite, com o encargo de controlar todas as entradas de dinheiro, tanto das promessas como das “ofertas”; e, depois,
reservar para o Estado pelo menos metade da verba apurada cada dia, cada mês, cada ano. E também metade do outro que o santuário continua a juntar cada
ano, não se sabe bem para quê, talvez para fabricar um enorme bezerro do dito, muito maior e mais poderoso do que o que o sacerdote Aarão, irmão de Moisés,
terá mandado fabricar e erguer no deserto, a partir do ouro das mulheres hebreias.
Aliás, o actual empreendimento, a inaugurar em Outubro, merece um bezerro à altura. Não bastam os nove mil lugares sentados. É preciso impressionar as pessoas
que lá entrarem e lá se sentarem. E nada como um bezerro de ouro, porque, está visto, é do que as pessoas e os povos mais gostam. Por isso é que os bancos
somam lucros e mais lucros, de ano para ano, também com a cumplicidade dos Governos que cobram em impostos mais de metade do que nós pagamos nos combustíveis
utilizados nos transportes de todos os dias, mas não se atrevem a fazer o mesmo aos bancos, muito menos ao santuário de Fátima, os quais somam lucros fabulosos,
ano após ano. E eu acho que sei porque é que os governos procedem assim. É que também eles do que mais gostam é de ver crescer o bezerro de ouro, não as
pessoas nem os povos.
Os desgraçados pagadores de promessas avançam estes dias estrada fora para Fátima, enquanto o seu reitor, o reitor do seu santuário preferido exibe à comunicação
social o seu último empreendimento, pago a pronto. Não há grande santuário em honra da mítica deusa virgem e mãe dos cultos politeístas do Paganismo que
não albergue dentro dele um bezerro de ouro. No fim de contas, é disso que as pessoas e os povos gostam. É isso que elas procuram. Não o Deus Vivo. Desse
fogem a sete pés! E para alcançarem o bezerro de ouro são capazes de tudo, de todos os sacrifícios, até de se despojarem do ouro e de outras jóias valiosas
com que se enfeitam, só para que ele não lhes falte, nem faltem junto dele sacerdotes ricamente vestidos e em grande número.
O país pode ir à falência, que ninguém se preocupa. Continuarão a fugir ao pagamento dos impostos e a gastar à tripa forra, a roubar o mais que puderem,
a corromper o mais que puderem. Dêem-lhes santuários cada vez maiores. Dêem-lhes bezerros de ouro cada vez maiores e poderosos/esmagadores. Dêem-lhes sacerdotes-comerciantes
e pastores de olhos pregados nas carteiras e nas contas bancárias dos seus crentes. E eles deliram. Dirão, inclusive, aos repórteres de tv que são felizes.
Testemunharão que nem sentem as dores, nem os pés abertos, nem as carteiras vazias. O bezerro de ouro come-lhes tudo, come-os também a eles, e eles continuam
a dizer-se felizes. Uma felicidade que rima com incultura, com subdesenvolvimento, com ignorância, com alienação, com religião. E que é intrinsecamente
incapaz de aceitar crescer em sabedoria e em graça, à medida que eles próprios crescem em idade. Por isso, uma lástima de todo o tamanho. Que me faz chorar
lágrimas de dor por todos eles. Sem que eles se preocupem com isso, ou vejam nestas minhas lágrimas amor solidário e compassivo. Porque prosseguirão com
mais ou menos fanatismo na deles, ano após ano, a despojar-se de si mesmos, do seu dinheiro, do seu tempo, do seu ouro, da sua saúde, para que o bezerro
de ouro cresça, juntamente com o santuário. Enquanto eles diminuem. De ano para ano! Desgraçado País que tais filhas, tais filhos tem!
Fonte:
Padre Mário de Macieira.